segunda-feira, janeiro 01, 2007


Memorial

Tudo começou há muitos anos...
Quando estava com 19 anos me formando no Magistério em 1978. Casei e logo tive minha primeira filha, fiz meu estágio após seu nascimento. O tempo foi passando, passando e quando eu menos esperava apareceu a oportunidade de fazer um concurso para o Magistério Público Estadual e lá fui eu, passei mas levou quase dois anos para que fosse chamada.
Até que enfim aconteceu e fui dar aula em uma escola bem pequena no interior do interior, com apenas 10 alunos, foi encantador. Fiquei nesta escola por apenas um ano e a partir dali comecei minha caminhada acompanhando meu marido, por várias cidades do RS, trabalhando em escolas de comunidades diversas.
Em 1991 fiz outro concurso e novamente passei, também levou tempo para que eu assumisse.
Até que então fiquei com duas nomeações do estado, trabalhando 40 horas semanais.
Mas não consegui me imaginar estudando novamente.
Não acreditava em meu potencial, pois achava que pelo fato de não gostar de estudar não teria grandes possibilidades de passar em um vestibular. Por vários motivos fui adiando fazer esta passagem.
Sempre fui incentivada a estudar por meu marido, mas eu acabava dizendo agora não dá, as crianças estão pequenas, o dinheiro está curto, não estou afim, já estou muito velha pra recomeçar e os anos foram passando tivemos quatro filhas lindas, saudáveis e maravilhosas. Meu marido é pós-graduado em Direito do Trabalho, minha filha mais velha está fazendo o TC em Administração com Habilitação em Recursos Humanos, minha segunda filha está fazendo o último ano do curso de Direito, a terceira está no quinto semestre de Direito e a minha filha caçula está entrando no Ensino Médio e um lindo neto, filho da minha segunda filha, que está na segunda série do Ensino Fundamental.
Quando de repente ganhei uma estagiária que chegou com todo o gás para dar aula no primeiro semestre e fez uma revolução com meus alunos e comigo mesma. Houve entre nós empatia de cara e ela estava se preparando para fazer vestibular do IESD (Faculdade a distância da ULBRA). Começou a me colocar ?pilha? para que também fizesse vestibular e eu mais uma vez dizia: ? é...quem sabe...pode ser...? e acabei perdendo o dia da inscrição. Ela fez, passou e começou a estudar. Continuou me dizendo e emprestando o material da escola para eu ler, pois iria adorar. Conclusão: paguei o bloqueto e fiquei bem quietinha, não falei nada em casa. No dia da prova levantei disse que iria fazer uma prova e quando voltei fiz o comentário, mas o pessoal lá de casa não me levou muito a sério.
Neste meio tempo surgiu o vestibular da UFRGS. Como já tinha encarado um, resolvi encarar mais um e fui lá, porém sem muitas expectativas, até porque UFRGS não é para qualquer um.
Bem pessoal! Para encurtar o caso, passei nas duas e optei pela UFRGS por vários motivos: A UFRGS é dez, gratuita, eu era a única em minha casa que tinha conseguido passar em uma Universidade Federal e outro motivo era que eu estava me achando o MÁXIMO!
Chegou o grande dia, expectativas, curiosidade, medo e insegurança, juntamente com os meus 47 anos. Como sempre fingindo muito bem e dizendo: ?Vou lá para ver o que é que vai dar!?. Ainda não acreditando que já estava lá.
O encontro foi alegre, descontraído e ao mesmo tempo angustiante pelo fato de não sabermos o que iria acontecer. Éramos uma turma de 66 pessoas, eu só conhecia uma pessoa que estava ali e obviamente me aproximei.
Professora Cíntia muito simpática e gentil tentava nos acalmar com suas palavras e gestos carinhosos. Acho que o pavor estava estampado em nossos olhos!!
Chegando em casa fui logo dizendo: ? Não sei não,pois é tudo no computador...como farei?!? e os questionamentos internos começaram, uma vontade de fugir e desistir começou a me bater...e mais uma vez meu marido e minhas filhas me diziam: ?Não desista!É assim mesmo com todo mundo...depois melhora!!?
Quando começaram a aparecer as primeiras atividades foi um caos total: chorei, me escabelei e entrava em casa todos os dias dizendo: ? Não vou mais! Não vou conseguir!!!?
Minha filha mais velha passou a me acompanhar ao Pólo para me auxiliar e foi aí que as coisas começaram a clarear. Tive que fazer um curso de informática para poder entender o funcionamento do computador. Mas para não pirar de vez, acabei abandonando, pois não conseguia mais conciliar trabalho, casa, Pólo e ainda mais o curso de informática. Foi aí que descobri realmente o quanto somos capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo até minha academia, que para mim era fundamental, abandonei. Mas em 2007, se Deus quiser, vou achar uma hora para voltar.
Hoje já estou conseguindo me organizar um pouco melhor coloquei horários para que eu possa estudar, ler e fazer meus trabalhos. Já ganhei meu computador e outros acessórios para que possa trabalhar com mais facilidade. Ainda não sei usar toda essa quantidade de aparelhos mas posso garantir que meu comportamento mudou: na escola em que trabalho, na relação com meus alunos, no convívio com meus familiares que estão me dando suporte para que eu possa ficar mais ausente.
Vejo-me mais tranqüila, sei que é só o começo e que terei muitas dificuldades para enfrentar, mas também sei que temos muito a fazer pela educação de qualidade que almejamos.
Quero poder crescer mais e mais, pois acredito que vivemos para ser felizes onde estamos na parceria e saudando a poesia de Mário Quintana encerro este Memorial:

?Somos todos anjos de uma asa só, para alçar vôo precisamos nos abraçar!?.

Assim essa história continuará e o tempo nosso destino.


.:: comentários: